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A Participação dos Utentes na Contemporaneidade

Author: Florbela

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Numa das sessões do Seminário de Investigação, a propósito da fundamentação e legitimação das metodologias qualitativas/compreensivas/Weberianas, a Prof. I.G. proferiu de rompante: “as pessoas não são estúpidas, dão um sentido às suas próprias acções. Daí que o pressuposto das metodologias compreensivas seja a descoberta e a procura desse sentido e dessa racionalidade, por forma a poder elucidar da lógica de construção dos fenómenos sociais”, (1ª sessão – 12/02/2009).

Noutra sessão, a propósito da Análise de Conteúdo, a Prof. I.G. prosseguiu mais ou menos nestes termos : “os sujeitos/actores/entrevistados são nossos parceiros. Têm informação ‘melhor’ que nós (entrevistadores/investigadores) e nós, agradecemos-lhes, considerando que tudo o que nos dizem é verdade, por se tratar da sua própria racionalidade, reconhecida à partida”.

Estes dois apontamentos, destas duas sessões em cujas problemáticas metodológicas estamos embrenhados, nesta prática investigativa que nos é comum, são bem o reflexo da extraordinária individualização que se pretende emancipada e participativa. Por oposição à subjugação face às estruturas de controle e reprodução social dos tempos pré-modernos.

A dicotomia autonomia/dependência que se coloca hoje aos nossos orientadores de tese, vai na mesma linha da dicotomia emancipação/regulação que se coloca ao A.S. nas suas práticas profissionais quotidianas. Trata-se da apologia de um registo de horizontalidade, em que aparenta não haver supremacia hierárquica vertical do investigador face ao investigado, do profissional face ao utente e já, nem sequer, do professor face ao aluno.  É também um registo de exercício de humildade, que não poucas vezes se presta a confusões e mal entendidos, que eu denomino com chavões como: desrespeito face à autoridade, não ter noção do seu lugar, prepotência juvenil, ausência de racionalidade, ser-se ‘tapadinho’, de entre outros.

(Não resisto a relatar-vos uma cena que presenciei há muito pouco tempo e que me deixou perplexa. Uma educadora de infância conduzia à minha frente e um polícia devidamente fardado estava, na entrada da escola, fazendo a sua sinalética de que não podíamos virar à esquerda e que tínhamos de seguir em frente, ela ligou o pisca da esquerda, o polícia, literalmente no meio da estrada, insistiu com gestos e mais gestos para esta condutora seguir em frente, mas ela, munida da sua (ir)racionalidade virou mesmo à esquerda, só faltando passar com uma roda por cima dos pés do polícia. Naquela noite haviam estado a pintar a passadeira para os peões e um duplo traço contínuo que impedia, a partir daquele dia, de se virar à esquerda naquele sítio. Foi multada. Explodiu num choro incontrolável. Estávamos na semana de adaptação das crianças à pré. Nunca tinha presenciado uma educadora a entrar com um menino pela mão, em que não se percebia qual deles chorava mais. Ela terá uns 45 anos de idade e é considerada boa profissional, já contando com uma larga experiência no ensino. Desfecho final: a vereadora da educação interferiu junto do chefe da polícia e esta multa foi anulada. Eu fiquei a pensar no que terá pensado e sentido aquele polícia com este desfecho, e nos reflexos para a suas práticas profissionais futuras…)

Esta horizontalidade parece estar associada ao alargamento dos modelos de gestão privada, que se estendem cada vez mais aos espaços público e científico, no que diz respeito à centralidade, muitas vezes indiscernível da ideia de supremacia do utente/cliente. Se na lógicas do mercado, inerentes à sociedade de consumo, ‘o cliente tem sempre razão’, pressupondo-se a existência duma racionalidade própria que se procurou descobrir (numa 1ª fase, acho eu), por forma a produzir os bens que vão ao encontro das reais necessidades dos consumidores, e portanto, com sucesso de venda, garantido à partida. Numa 2ª fase, que é a da nossa contemporaneidade, parece haver fortes razões de desconfiança sobre a existência desta racionalidade ‘à priori’- dada a quantidade de necessidades de consumo ‘inventadas’ e fecundamente disseminadas pela máquina consumista junto dos sujeitos/actores sociais, ditos racionais.

 

José Machado Pais, trata este assunto de forma brilhante no capítulo ‘As faces Ocultas da Loucura. O Consumismo que nos Consome’, (in ‘Nos Rastos da Solidão – Deambulações Sociológicas’, 2006: Ambar). Este autor propõe-se ‘impensar’ o mundo da loucura, com uma inversão do olhar face aos ‘clientes’ do Hospital Júlio de Matos que contrapõe e compara aos ‘doentes mentais’ que se amontoam num qualquer Centro Comercial.

‘A “barba de três dias” desloca-se em ténis aparentemente tão cómodos que nem atacadores têm; as “madeixas louras” equilibram-se em botas de saltos alto com ponta tão pontiaguda que é difícil acreditar como os dedos dos pés podem sobreviver nelas entalados. Os dedos dos pés “loucos” vivem aparentemente em regime mais racional do que os pés oprimidos pela ditadura das botas pontiagudas de salto alto. No entanto, os ténis desleixados são um “símbolo de estigma” enquanto os sapatos de salto alto são um “símbolo de prestígio”’( p.95).

Ultrapassado o parênteses que aqui se impõe, face à necessidade evidenciada de algum trabalha psicanalítico sobre mim própria, devido a esta manifestação que começa a ter contornos obsessivos por botas e sapatos (que eu na defensiva, prefiro denominar duma clara, consciente e inovadora opção de começar a observar reflexivamente as pessoas pelo lado dos pés);  entra-se directamente na ideia da comunicação entre os opostos. Machado Pais adapta esta ideia ao consumo que, segundo ele, tanto pode ser um espaço de “afirmação de cidadania” pela autonomia e liberdade de escolha; como da sua negação, dado o cenário de gastos inúteis e de impulsos irracionais, não imune à alienação.

‘A lucidez do louco está na sua autenticidade, é essa autenticidade que falta a todos os disfarçados loucos que por aí circulam, plenamente convictos do seu juízo perfeito’ (p. 92).

Esta questão da autenticidade, assim colocada, faz-me duvidar dos pressupostos compreensivos/weberianos, enquanto investigadora. Se a minha amostra recair sobre ‘disfarçados’, não poderei pressupor da sua veracidade? Ou posso? Este disfarce é a sua própria racionalidade? As pessoas não são estúpidas, nem loucas e dão sempre um sentido às suas próprias acções? Se se coloca assim em causa a racionalidade dos sujeitos/actores, muito evidente ao nível do consumo; e se se constata a tendência do alargamento das lógicas privadas da economia de mercado às esferas pública e científicas; torna-se preocupante perspectivar os efeitos dos modelos de centralidade/supremacia dos indivíduos face às estruturas  e aos sistemas.

 

As vozes que se levantam face às dicotomias dependência/autonomia, regulação/emancipação e passividade/participação; são,  pelo que me é dado perceber, quase unanimemente defensoras dos segundos elementos dicotómicos. Pretendi aqui, muito superficialmente, questionar esta unanimidade de posicionamentos, porque estou a começar a sentir o apelo da procura dessa ‘inversão do olhar’ face ao campo específico dos Gabinetes de Utente/Cidadão nos Centros de Saúde. Tratando-se de espaços de participação dos utentes nos serviços, nas decisões e nos processos que lhe dizem respeito, serão, também eles, canais de comunicação dos opostos? Partindo da possibilidade que tanto podem ser espaços de ‘afirmação de cidadania’ como espaços da sua própria negação, para qual dos lados se inclina mais o caso particular do ACES específico que pretendo investigar? Qual é o perfil destes utentes, a quem se abrem as portas da participação e de que tipo de participação se trata? As queixas e reclamações dos utentes não são estúpidas, à partida? E no final, terão sempre uma racionalidade própria? E, se não a descobrir, ‘o burro sou eu?'

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